domingo, 15 de agosto de 2010

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Introdução
Michel Cole e Sylvia Scribner

Quando Lev. S. Vigostsky, advofado e filólogo, iniciou sua carreira como psicólogo após a Revolução Russa de 1917, já havia contribuido com vários ensaios para a crítica literária. Na época em que predominavam Wilhelm Wundt, o fundadador da psicolofia experimental, e Wiliam James, representantes do pragmatismo americano, ele era estudante. Na ciencia, foram seus contemporaneos, entre outros, Ivan Pavlov, Wladimir Bekhterev e John B. Watson, todos adeptos das teorias comportamentais privilegiadoras da associação estímulo resposta, além de Wertheimer, Kohler, Koffka e Lewin, fundadores do movimento da Gestald na psicologia. O leitor poderia esperar, então, que o trabalho de Vigotsky tivesse principalmente interesse histórico - talvez enquanto uma breve visão de como os fundadores dapsicologia moderna influenciaram a psicologia soviética na Russia pós revolucionária. Certamente esses têm interesses na perspectiva da história intelectual, mas , de forma alguma, constitiem relíquias históricas. Pelo contrário´nós os oferecemos como uma contribuição às controvérsias e discussões da psicologia contemporânea.
Com o objetivo de entender como as idéias deste livro puderam manter sua relevância através das distâncias de tempo e de cultura que nos separam de Vigotsky, tivemos que, repetidamente, refletir

sobre as condições da psicologia européia que forneceram o cenário inicial para as teorias de Vigotskt. Foi-nos de grande valia examinar as condições da sociedade e da psicologia da Russia pós revolucionária, uma vez que eram fonte dos problemas imediatos com os quais Vigotsky se defrontava, bem como fonte de inspiração, na medida em que ele e seis colegas procuravam desenvolver uma teoria marxista do funcionamento intelectual humano.

No início do século XIX

Até a segunda metade do século XIX, o estudo da natureza humana era um atributo da filosofia. Os seguidores de John Locke, na Inglaterra, desenvolveram sua concepção empiriciata da mente, qie enfatizava a origem das idéias a partir de sensações produzidas por estimulação ambiental. O maior problema da análise psicologica, para esses empiricistas ingleses, era descrever as leis de associação pelas quais sensações simples combinam-se para produzir idéias complexas. No continente europeu, os seguidores de Immanuel Kant afirmavam que idéias de espaço e tempo e conceitos de quantidade, qualidade e relação originavam-se na mente humana e não poderiam ser decompostas em elementos mais simples. Ambos os grupos mantinham-se irredutíveis em suas posições. Ambas as tradições filosóficas desenvolviam-se tendo como pressuposto, originado a partir dos trabalhos de René Descartes, que o estudo científico do homem deveria restringir-se ao seu corpo físico. À filosofia estava designado o estudo de sua alma.
Apesar de o conflito entre essas duas abordagens se estender até os dias de hoje, os termos dessa discussão, poe volta de 1860, foram mudados irrevogavelmente pela publicação quase que simultânea de três livros. Deles, o mais famoso foi A ORIGEM DAS ESPÉCIES, de Darwin, que argumentava a favor da continuidade essencial entre o homem e outros animais. Uma consequencia imediata dessa afirmação foi o esforço de muitos intelectuais para estabelecer descontinuidades que separassem seres humanos adultos de seus psrwntes inferiores (tanto ontogenética quanto filogenéticamente). O segundo livro, Die Psychophysik, de Gustav Fechner, apresentava uma descrição detalhada e matematicamente elaborada da relação entre as variações de eventos físicos determináveis e as respostas "psíquicas" expressas verbalmente. O que Fechner propunha era, nem mais nem menos, a descrição quantitativa do conteúdo da mente humana. O terceiro livro, um volume pequeno, intitulado Reflexos do cérebro, foi escrito por um médico de Moscou chamado I.M.Sechenov. Sechenov, que havia estudado com alguns dos mais eminentesfisiologistas europeus, contribuiu para a compreensão dos reflexos sensório-motores simples usando a técnica da preparação neuromoscular isolada. Sechenov estava convencido de que os processos por ele observadosem tecidos isolados de rã eram, em princípio, os mesmos que ocorrem no sistema nervoso central dos organiamos intactos, inclusive nos seres humanos. Se as respostas musculares, em sua preparação, podiam ser explicadas por processos de inibição e excitação, por que as mesmas leisnão poderiam ser aplicadas às operações no córtex cerebral humano? Mesmo na ausência de evidências diretas para essas especulações, as idéias de Sechenov sugeriram as bases fisiológicas para a ligação entre o estudo científico natural de animais e os estudos filosóficos humanos anteriores. O censor Czar parece ter compreendido as implicações materialistas e revolucionárias das teses de Sechenov, proibindo a sua publicação pelo tempo que pôde. Quando finalmente o livri foi publicado, continha uma dedicatória a Charles Darwin.
Esses três livros, de Darwin, Fechner e Sechenov, podem ser vistos como constituintes essenciais do pensamento psicológico do século XIX. Darwin uniu animais e seres humanos num sistema conceitual ínico regulado por leis naturais; Fechner forneceu um exemplo do que seria uma lei natural que descrevesse as relações entre eventos físicos e o funcionamento da mente humana; Sechenov: exteapolando observações feitas em preparações neuromusculares isoladas de rãs, propôs uma teoria fidiológica do funcionamento de tais processos mentais em seres humanso normais. Nenhum desses autores se considerava (e tampouco era considerado pelos eus contemporâneos) psicólogo. No entanto, eles forneceram as questões centrais que preocupariam a psicologia, uma ciência jovem, na segunda metade do século: quais são as relações entre o comportamento humano e o animal? Entre eventos ambientais e eventos mentais? Entre processos fisiológicos e psicológicos? Várias escolas de psicologia atacaram uma ou outra dessas questões, contribuindo com repostas parciais dentro de perspectivas teóricas limitadas.
De tais escolas, a primeira foi fundada por Wilhelm Wundt, em 1890. Wundt assumiu como tarefa a descrição do conteudo da consciencia humana e sua relação com a estimulação externa.. Seu método consistia em analisar os vários estados de consciência em seus elementos constituintes, definidos por ele mesmo como sensações simples. A priori , ele excluiu, como elementos de consciência, sensações tais como "sentimento de estar ciente" ou "percepção de relações", considerando esses fenômenos como "nada mais do que" subprodutos de métodos falhos de observação (introspecção). De fato, Wundt propôs, explicitamente, que as funções mentais complexas, ou, como eram então conhecidas, os "processos psicológicos superiores" (a lembrança voluntária e o raciocínio dedurivo, por exemplo) não poderiam, em princípio, ser estudadas pelos psicólogos experimentais. Na sua opinião, só poderiam ser pesquisadas através de estudos históricos dos produtos culturais, tais como as lendas, costumes e linguagem.
Por volta do começo da Primeira Guerra Mundial os estudos introspecrivos dos processos conscientes humanos sofreram ataques vindos de duas direções. Tanto nos Estados Unidos quanto na Rússia, psicólogos descontentes com as controvérsias em torno das descrições introspectivas corretas das sensações, e com a consequente esterilidade da pesquisa resultante, renunciaram ao estudo a consciência em prol do estudo do comportamento. Explorando o potencial sugerido pelo estudo de Pavlov dos reflexos condicionados (desenvolvido a partir de Sechenov) e pelas teorias de Darwin sobre a continuidade evolutiva entre os animais e o homem, essas correntes psicológicas abriram muitas áreas para o estudo científico do comportamento animal e humano.
Com relação a um aspecto importante, entretanto, concordavam com seus antagonistas introspectivos: sua estratégia básica consistia em identificar as unidades da atividade humana (substituindo as sensações pela unidade estímulo- resposta) e então espsecificar as regras pelas quais esses elementos se combinam para produzir fenômenos mais complexos. Essa estratégia concentrou-se, consequentemente, naqueles processos psicológicos compartilhados tanto por animais quanto por seres humanos, relegando os processos psicológicos superiores-pensamento, linguagem e comportamento volitivo. A segunda linha de ataque sobre a descrição do conteúdo da consciência veio de um grupo de pscicólogos que se contrapunham a um ponto, em relação ao qual tanto Wundt quanto os behavioristas concordavam: a validade de analisar os processos psicológicos em seus constituintes básicos. Esse movimento, que veio a ser conhecido como a psicologia da Gestald, demonstrou que muitos fenômenos intelectuais (os estudos de Kohler com macacos antropóidess constituem um exemplo) e fenômenos perceptuais (por exemplo, os estudos de Wertheimer sobre o movimento aparente de luzes intermitentes) não poderiam ser expkicados pela postulação de elementos básicos da consciência nem pelas teorias comportamentais baseadas na unidade esímulo-resposta. Os gestaltistas rejeitavam, em princípio, a possibilidade de , através de processos psicológicos simples`, explicar os processos mais complexos.
Resumidamente, era essa a situação da psicologia européia quando Vigotsky apareceu em cena. Na Rússia , a situação não era muito diferente.

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